Você começa a emagrecer.
A balança finalmente responde.
As roupas ficam mais largas.
O corpo muda.
Então, algumas semanas ou meses depois, surge algo que ninguém estava esperando:
mais cabelo no banho, no travesseiro e na escova.
E a primeira pergunta costuma ser quase automática:
“É o Mounjaro que está fazendo meu cabelo cair?”
Existe, sim, uma relação entre Mounjaro, tirzepatida e queda de cabelo. Inclusive, a Anvisa reconheceu queda de cabelo como um dos novos eventos adversos identificados nos estudos de tirzepatida para controle do peso e incorporados às informações do produto.
Entretanto, existe um detalhe importante.
Até o momento, a melhor explicação não é simplesmente que a tirzepatida “ataca” o cabelo.
Em muitos pacientes, o verdadeiro gatilho parece estar relacionado à grande ou rápida perda de peso, à redução importante da ingestão alimentar e, em alguns casos, a deficiências nutricionais que podem acontecer durante o processo. A American Academy of Dermatology destaca justamente essa hipótese e afirma que ainda precisamos de mais dados para determinar quanto do fenômeno é efeito direto do medicamento e quanto está relacionado às mudanças que acompanham o emagrecimento.
E isso muda completamente a forma de olhar para o problema.
Mounjaro causa queda de cabelo de verdade?
A resposta é:
queda de cabelo pode acontecer durante o tratamento com tirzepatida.
Não é apenas uma impressão relatada nas redes sociais.
Nos Estados Unidos, a informação oficial da tirzepatida para controle de peso mostra queda de cabelo em aproximadamente 4% a 5% dos pacientes tratados, comparado a cerca de 1% no grupo placebo. Além disso, o evento foi significativamente mais frequente entre mulheres: aproximadamente 7,1% das mulheres tratadas relataram queda de cabelo, contra 1,3% no placebo. Entre homens, os números foram muito menores.
Existe, porém, uma informação ainda mais interessante na própria documentação:
a queda de cabelo foi associada à redução de peso.
Em outras palavras, existe um sinal real nos estudos, mas isso não significa necessariamente toxicidade direta da tirzepatida sobre o folículo capilar.
Provavelmente estamos diante de uma história mais complexa.
O problema pode estar no emagrecimento rápido
O nosso cabelo é metabolicamente muito ativo.
Por isso, quando o organismo passa por uma mudança importante — como cirurgia, febre, doença grave, parto, estresse intenso ou perda rápida de peso — ele pode redirecionar recursos para funções consideradas mais essenciais.
Como consequência, uma quantidade maior de fios pode sair antecipadamente da fase de crescimento e entrar na fase de repouso.
Alguns meses depois, esses fios começam a cair.
Esse fenômeno recebe o nome de:
Eflúvio telógeno
É uma das explicações mais prováveis para a queda de cabelo observada durante grandes emagrecimentos.
Uma revisão científica descreve perda súbita de peso como um dos desencadeadores clássicos de eflúvio telógeno.
Além disso, um estudo publicado em 2024 analisou pacientes que desenvolveram eflúvio telógeno associado à perda de peso. Em média, eles haviam perdido cerca de 15% do peso corporal, com velocidade aproximada de 3,5 kg por mês. Isso não significa que exista um número exato a partir do qual o cabelo necessariamente cairá, mas mostra que perdas importantes e rápidas podem representar um estresse biológico relevante.
Portanto, talvez a pergunta correta não seja apenas:
“Mounjaro faz cair cabelo?”
Talvez seja:
“O meu organismo está recebendo tudo aquilo que precisa enquanto eu emagreço?”
Por que a queda não começa imediatamente?
Essa é uma característica que confunde muita gente.
Você pode começar a usar tirzepatida hoje e perceber a queda de cabelo apenas dois ou três meses depois.
Isso acontece porque existe um intervalo entre o evento que desencadeia o eflúvio telógeno e o momento em que os fios efetivamente começam a cair.
Na literatura dermatológica, a queda difusa costuma surgir aproximadamente 2 a 3 meses após o gatilho fisiológico.
Por exemplo:
Você começou o tratamento em janeiro.
Em janeiro, fevereiro e março perdeu bastante peso.
Então, em março ou abril, percebe:
“Meu cabelo começou a cair muito agora.”
Naturalmente, parece estranho.
Mas o problema pode ter começado metabolicamente semanas antes.
Como é a queda de cabelo relacionada ao emagrecimento?
No eflúvio telógeno, geralmente não aparece uma falha redonda isolada.
O padrão costuma ser diferente.
A pessoa começa a perceber:
- muitos fios durante o banho;
- cabelo no travesseiro;
- aumento de fios na escova;
- redução geral do volume;
- rabo de cavalo aparentemente mais fino;
- couro cabeludo ficando mais visível de forma difusa.
Ou seja, é uma queda espalhada, e não necessariamente uma região específica ficando careca.
Esse padrão é bastante diferente, por exemplo, da alopecia areata ou de algumas formas de alopecia androgenética.
Por isso, nem toda queda durante o tratamento com Mounjaro deve ser automaticamente chamada de “efeito colateral da tirzepatida”.
Primeiro precisamos descobrir qual tipo de queda está acontecendo.
Comer muito pouco pode piorar o problema
Aqui está um dos erros mais frequentes durante o tratamento.
A pessoa começa a usar tirzepatida.
A fome diminui muito.
Ela pensa:
“Quanto menos eu conseguir comer, mais rápido vou emagrecer.”
Então começa a passar o dia com pouquíssima comida.
A balança responde rapidamente.
Só que o organismo também responde.
E nem sempre da maneira que gostaríamos.
A redução importante da ingestão pode fazer com que proteína, ferro, zinco e outros micronutrientes fiquem inadequados. A própria American Academy of Dermatology aponta que pessoas usando medicamentos da família GLP-1 podem acabar ingerindo menos proteínas, vitaminas e nutrientes importantes para o crescimento capilar.
Isso é especialmente relevante porque baixa ingestão proteica e deficiência de ferro são gatilhos conhecidos de eflúvio telógeno.
Por isso:
comer menos não significa comer pior.
Na verdade, durante o tratamento com tirzepatida, a qualidade da alimentação se torna ainda mais importante.
Proteína importa para o cabelo?
Sim.
Mas existe um motivo adicional para falar sobre proteína.
Durante grandes perdas de peso, nosso objetivo deveria ser reduzir predominantemente gordura enquanto preservamos o máximo possível de massa muscular.
Portanto, uma ingestão proteica adequada ajuda tanto na estratégia de composição corporal quanto na oferta de aminoácidos necessários para inúmeras funções do organismo.
O cabelo, evidentemente, não é a única delas.
Entretanto, dietas muito restritivas e com pouca proteína estão descritas entre os fatores que podem desencadear eflúvio telógeno.
Isso reforça algo que eu considero essencial:
a melhor dieta durante a tirzepatida não é necessariamente aquela que faz você comer o mínimo possível.
É aquela que consegue promover emagrecimento mantendo seu organismo bem nutrido.
Quais exames investigar quando o cabelo começa a cair?
Aqui é onde vale sair da tentativa e erro.
A queda pode coincidir com a tirzepatida, mas existir outro fator por trás.
Entre os elementos que costumam entrar na investigação clínica estão:
Hemograma
Para procurar anemia e outras alterações.
Ferritina e avaliação do metabolismo do ferro
Deficiência de ferro é uma causa importante a considerar diante de queda difusa de cabelo.
TSH e, conforme o contexto clínico, hormônios tireoidianos
Alterações da tireoide podem provocar queda capilar.
Vitamina B12 e folato
Principalmente quando existem fatores de risco nutricional.
Zinco
Pode ser considerado dependendo da alimentação, sintomas e contexto clínico.
Vitamina D
Também é frequentemente avaliada em pacientes com queixas capilares, embora encontrar um nível baixo não signifique automaticamente que essa seja a causa da queda.
Em uma grande série com mais de 3 mil pacientes com eflúvio telógeno, ferro, função tireoidiana, vitamina B12, vitamina D, folato e zinco estavam entre os parâmetros laboratoriais investigados.
Por outro lado, isso não significa que todo paciente precisa realizar indiscriminadamente dezenas de exames.
Investigação deve seguir história clínica, exame físico e fatores de risco.
Preciso tomar biotina para evitar queda de cabelo?
Não automaticamente.
Essa é uma das associações mais comuns:
cabelo caiu = biotina.
Mas a medicina não funciona tão bem quando tratamos todos os pacientes com a mesma deficiência imaginária.
Se existe uma deficiência nutricional, ela deve ser identificada e corrigida.
Entretanto, tomar doses elevadas de vitaminas e minerais sem necessidade não transforma necessariamente um fio saudável em um fio mais saudável.
Na prática, o objetivo deveria ser descobrir o que está faltando, caso algo esteja faltando.
Não simplesmente adicionar uma coleção de suplementos.
Preciso parar o Mounjaro se meu cabelo estiver caindo?
Na maioria das vezes, não é possível responder isso apenas olhando para a queda.
Antes de suspender uma medicação eficaz para obesidade, precisamos analisar:
- intensidade da queda;
- padrão da queda;
- velocidade de emagrecimento;
- quantidade de calorias ingeridas;
- ingestão de proteínas;
- presença de deficiências nutricionais;
- ferro e ferritina;
- função tireoidiana;
- outros medicamentos;
- histórico familiar de alopecia;
- presença de alterações no couro cabeludo.
Além disso, nos estudos da tirzepatida para controle de peso, nenhum participante tratado interrompeu o medicamento especificamente por queda de cabelo, segundo a informação oficial americana analisada.
Portanto, queda de cabelo não significa automaticamente que o tratamento precisa ser suspenso.
Significa que merece ser investigada.
O cabelo volta a crescer?
Essa provavelmente é a pergunta mais importante para quem está vendo fios pela casa inteira.
Quando se trata realmente de eflúvio telógeno agudo, o prognóstico geralmente é favorável.
Essa condição costuma ser temporária e, depois que o gatilho é corrigido ou estabilizado, o ciclo capilar tende a se reorganizar. Fontes dermatológicas descrevem o eflúvio telógeno agudo como uma condição frequentemente autolimitada, com recuperação progressiva.
Entretanto, existe uma diferença importante entre:
parar de cair
e
recuperar o volume anterior.
O cabelo cresce devagar.
Portanto, mesmo quando a causa já foi corrigida, pode levar vários meses para visualmente o volume retornar.
Isso exige paciência.
E, principalmente, exige diagnóstico correto.
Mas e se não for eflúvio telógeno?
Esse é outro motivo para não tratar toda queda da mesma maneira.
Às vezes, uma grande perda de peso simplesmente torna mais evidente uma condição que já existia.
Por exemplo, uma pessoa pode ter predisposição à alopecia androgenética feminina ou masculina e só perceber depois que perde muitos fios durante um episódio de eflúvio.
Além disso, existem outras possibilidades:
- alopecia areata;
- alterações da tireoide;
- deficiência de ferro;
- doenças do couro cabeludo;
- alterações hormonais;
- medicamentos;
- estresse intenso;
- alopecias cicatriciais.
Por isso, queda persistente, falhas localizadas, coceira importante, dor, descamação, inflamação ou alteração do couro cabeludo merecem avaliação dermatológica.
Mulheres podem perceber mais queda durante a tirzepatida?
Os estudos sugerem que sim.
Nos ensaios utilizados na documentação americana da tirzepatida para controle de peso, queda de cabelo foi reportada por aproximadamente 7,1% das mulheres tratadas, contra 0,5% dos homens. No placebo, os números foram 1,3% e 0%, respectivamente.
Existem algumas hipóteses para essa diferença.
Além de questões biológicas e hormonais, mulheres apresentam maior frequência de algumas causas de queda difusa e também podem perceber alterações de volume mais rapidamente.
Entretanto, esses números não significam que toda mulher utilizando Mounjaro terá queda.
Na realidade, a grande maioria não apresenta esse evento adverso.
Quanto mais rápido emagrecer, maior pode ser o risco?
É uma hipótese bastante plausível e consistente com aquilo que sabemos sobre eflúvio telógeno.
Perda rápida de peso é um gatilho conhecido.
Isso nos leva a uma questão interessante.
Quando alguém me diz:
“Quero perder o máximo possível no menor tempo possível.”
A pergunta deveria ser:
a que custo?
Porque não estamos tratando apenas uma balança.
Estamos tratando uma pessoa.
Preservar massa muscular, manter consumo proteico adequado, evitar deficiências nutricionais, garantir hidratação e sustentar uma rotina saudável fazem parte de um emagrecimento de qualidade.
Um resultado excelente não deveria ser apenas:
“-20 kg”.
Deveria ser:
menos gordura, boa musculatura, bons exames, energia, saúde e capacidade de manter o resultado.Como reduzir o risco de queda de cabelo durante o emagrecimento?
Não existe uma fórmula capaz de garantir que nunca ocorrerá queda.
Entretanto, alguns princípios fazem bastante sentido.
1. Evite restrições extremas
Tirzepatida já pode reduzir bastante a fome.
Por isso, não existe necessidade de transformar a alimentação em uma competição para descobrir quem consegue comer menos.
2. Priorize proteína
A ingestão deve ser individualizada conforme peso, composição corporal, atividade física, função renal e objetivo terapêutico.
3. Treine força
Além dos benefícios metabólicos, a musculação ajuda na preservação da massa muscular durante o emagrecimento.
4. Monitore a velocidade de perda
Mais rápido não é sempre melhor.
5. Corrija deficiências reais
Ferro, vitamina B12, zinco e outros nutrientes devem ser corrigidos quando existe indicação.
6. Observe o padrão da queda
Queda difusa alguns meses após grande emagrecimento sugere um cenário diferente de uma falha focal ou inflamação do couro cabeludo.
7. Não espere meses se houver sinais de alerta
Quanto mais cedo identificamos outra forma de alopecia, melhor conseguimos direcionar o tratamento.
Quando procurar um dermatologista?
Vale procurar avaliação especialmente quando:
- a queda é muito intensa;
- persiste por vários meses;
- aparecem áreas sem cabelo;
- existe diminuição progressiva da linha frontal;
- a risca do cabelo está ficando cada vez mais larga;
- existem vermelhidão, feridas ou descamação;
- existem sintomas sistêmicos associados;
- existe forte histórico familiar de alopecia.
Nesses casos, uma avaliação do couro cabeludo e, quando necessário, dermatoscopia ajudam bastante na diferenciação.
Mounjaro causa queda de cabelo ou o problema é emagrecer?
Provavelmente não existe uma resposta única.
A queda de cabelo é reconhecida como evento adverso associado ao tratamento com tirzepatida para emagrecimento. No Brasil, a Anvisa incluiu esse evento nas informações do produto após os estudos da indicação para controle crônico do peso.
Ao mesmo tempo, a documentação americana relaciona o evento à redução de peso, enquanto especialistas em dermatologia consideram perda rápida de peso, redução da ingestão alimentar e possíveis deficiências nutricionais explicações importantes. Um efeito direto do medicamento sobre o crescimento capilar ainda não está completamente esclarecido.
Portanto, dizer:
“é simplesmente o Mounjaro”
é simplificar demais.
E dizer:
“não tem nenhuma relação com o Mounjaro”
também seria incorreto.
A resposta mais adequada está no meio.
O que vale lembrar
Se você está emagrecendo com tirzepatida e percebeu aumento da queda de cabelo, não entre imediatamente em pânico.
Primeiro, entenda o contexto.
A queda pode ser temporária.
Pode estar relacionada à velocidade do emagrecimento.
Pode existir ingestão inadequada de proteína.
Pode haver deficiência de ferro.
Pode existir alteração da tireoide.
Ou, ainda, o emagrecimento pode ter revelado uma predisposição capilar que já estava presente.
Por isso, o caminho não deveria ser simplesmente comprar mais um suplemento ou interromper o tratamento sozinho.
O caminho deveria ser investigar.
Porque um emagrecimento bem conduzido não deveria olhar somente para o número da balança.
Ele deve olhar para aquilo que você está perdendo.
E também para aquilo que precisamos preservar durante o processo.
Perguntas frequentes sobre Mounjaro e queda de cabelo
Mounjaro causa queda de cabelo?
A queda de cabelo foi identificada como evento adverso nos estudos de tirzepatida para controle de peso. Entretanto, há forte relação com a própria perda de peso, e ainda não está totalmente estabelecido quanto existe de efeito direto do medicamento sobre o folículo.
Quantas pessoas têm queda de cabelo usando tirzepatida?
Nos estudos descritos na documentação americana para controle de peso, aproximadamente 4% a 5% dos pacientes tratados relataram queda, comparado a cerca de 1% com placebo. Entre mulheres tratadas, a incidência relatada foi de 7,1%.
A queda de cabelo do Mounjaro é permanente?
Quando a causa é eflúvio telógeno decorrente de grande ou rápida perda de peso, geralmente é temporária e o crescimento tende a se recuperar após estabilização do fator desencadeante.
Quanto tempo depois do emagrecimento o cabelo começa a cair?
O eflúvio telógeno costuma tornar-se perceptível aproximadamente dois a três meses depois do evento desencadeante.
Preciso parar a tirzepatida?
Não necessariamente. Primeiro é importante identificar o padrão e a causa da queda. A decisão sobre manter, ajustar ou interromper o tratamento deve ser individualizada.
Quais exames podem ser investigados?
Conforme o contexto, podem ser avaliados hemograma, ferritina e metabolismo do ferro, função tireoidiana e alguns micronutrientes, como vitamina B12, folato, zinco e vitamina D. A investigação deve ser direcionada pela história clínica e pelo exame.
Este conteúdo é informativo e não substitui consulta, diagnóstico ou orientação individual de profissional habilitado.